quinta-feira, 15 de abril de 2010

Jeca volta a ser notícia

Mazzaropi: a verdadeira história de quem contou histórias...


Os últimos três anos foram de intensa pesquisa para a jornalista Marcela Matos, autora do livro “Sai da frente! A vida e a obra de Mazzaropi”. A biografia de Amácio Mazzaropi foi lançada, pela editora Desiderata no dia 08 de abril, véspera do aniversário do artista. Na ocasião também foi reinaugurado o museu que leva o nome de Mazzaropi. Leia os melhores trechos da nossa conversa com a autora:


Seu livro é o pioneiro em informações sobre Mazzaropi. Como você as conseguiu?
Na verdadenão esiste parente vivo dele. A mãe dele morreu dois anos depois da sua morte. Ele tem dois filhos, que considerava adotivos, mas nunca registrou. Esses filhos desapareceram, não se apresentaram nem para o espólio. Então eu conversei com pessoas que trabalharam com ele. Pessoas que estavam envolvidas no processo do espólio e com advogados. Pessoas que de alguma forma participaram da história dele.

Qual foi a etapa mais difícil da pesquisa?
Toda a pesquisa foi complicada. Alguns momentos da vida dele são cheios de informações, como por exemplo, na participação dele no cinema. Mas do começo da carreira, na época em que atuava em circo, são poucas as informações. Sobre o período da infância então, foi muito difícil de encontrar. Porém, você vai procurando e encontrando. Eu achei uma entrevista que ele deu para a revista Realidade em que conta detalhes da infância. Fiquei radiante quando encontrei aquilo. Muitas respostas que eu procurava estavam lá. É um verdadeiro garimpo. Não é uma coisa fácil.

Você escreveu a biografia da fundadora da Casa Cor e agora a do Mazzaropi. Existe alguma diferença entre elas?
Então, Casa Cor foi uma situação diferente. Eu conhecia a fundadora (Yolanda Figueiredo). Ela tinha vontade de escrever uma biografia, mas tinha um pouco de vergonha, um pouco de medo de ser pretensiosa. Foi um projeto, vamos dizer assim, encomendado, eu escrevi a pedido dela e o tempo todo sobre a análise dela. É um biografado vivo. É difícil porque em alguns momentos do livro ela dizia: Não!! Isso é melhor não detalhar...

E Mazzaropi...
Como o Mazzaropi, o que aconteceu foi o seguinte: eu comecei a trabalhar para o Hotel Fazenda Mazzaropi em 2000, e na época o acervo que se tinha dele era muito pequeno. Quando ele morreu e houve a briga pelo espólio, foi cada coisa para um lado e não ficou nada da essência dele. Quando um empresário comprou o Hotel Fazenda Mazzaropi, eles começaram a receber ligação de gente que falava assim: Ah, meu pai trabalhou com o Mazzaropi, eu tenho um monte de fotos dele sendo maquiado para o filme tal, o que eu posso fazer com isso, e aí doavam esse material. O hotel criou um museu, uma coisa simples, mas que foi crescendo. E eu fui conhecendo o outro lado do Mazzaropi, percebi que ele não era só aquele ator comediante, contador de piada. Ele tinha uma visão empreendedora muito grande e me interessei em fazer um livro ou alguma coisa sobre ele. Até o momento não tinha nada muito específico publicado sobre ele . O que tinha era muito mambembe merecia uma pesquisa mais aprofundada.

Fazer cinema hoje no Brasil ainda é complicado. Por que o cinema daquela época, feito por ele dava certo e hoje não dá?
Eu não pensei que o livro fosse provocar essa discussão. Nos anos 60 e 70, ele fez um filme por ano, e mais até, com um sucesso de bilheteria incrível. Ele produziu todos os filmes, ele comprou uma fazenda, ele comprou equipamento, ele contratava gente e ainda assim ele tinha lucro; nunca pediu dinheiro para o governo, nunca utilizou leis de incentivo. Eu faria essa pergunta aos cineastas.

Você acha que o sucesso dos filmes dele era porque as pessoas se viam dentro daquela situação?
Sim, com certeza. As pessoas se identificavam com ele. Elas se viam nessa simplicidade. Esse é o segredo do sucesso dos filmes dele. Até porque o cinema, de maneira geral, trazia uma coisa entre Glauber Rocha e aqueles filmes que se até hoje gente assistisse, ia ficar discutindo por horas. O povo gostava de algo para rir e se identificar.

Ele foi o precursor do sucesso do cinema brasileiro?
O Mazzaropi está entalado na garganta de muita gente. Eu não acho que o cinema hoje deve o sucesso à ele. Ele foi lá, fez os filmes dele. Não tem ninguém tentando lhe superar. Ele começou trabalhando na Vera Cruz (companhia cinematográfica) que fez exatamente o oposto do que ele. Construiu um negócio gigantesco, trouxe gente da Itália, comprou equipamentos de não sei onde, pagava salários altíssimos para o iluminador e faliu porque não tinha como fechar aquela conta. E o Mazzaropi não, ele fez uma coisa mais simples. Fez um estúdio lá no interior que foi crescendo devagarzinho e deu certo.

O título foi escolhido por existir um filme dele com o mesmo nome ou pela personalidade dele?
Foi uma sugestão da editora que eu gostei muito por ter muito a ver com a personalidade do Mazzaropi. Desde o começo, ele foi uma pessoa que não se deu por vencido com as barreiras. A primeira barreira foi a família, mas ele tanto fez que a mãe foi ser atriz na trupe. Ele foi para o rádio, para a televisão e não desistiu em nenhum momento. Até o final da vida, ele foi vencendo as barreiras, então eu acho que “Sai da frente” tem a ver um pouco com a essa característica dele.

Você acha que ficou faltando alguma coisa?
Faltando não, mas a história dele é interminável. No dia do lançamento, em Taubaté (interior de São Paulo) conheci duas pessoas na fila de autógrafos que poderiam estar no livro: uma senhora me disse: “eu sou a madrasta dos donos do hotel, eu acompanhei a compra da propriedade”. Eu nunca soube da existência dela, é uma personagem importante, só que eu a conheci naquela noite. Conheci também o médico que fez o primeiro diagnóstico (Mazzaropi tinha câncer na medula) dele. Na verdade, se eu continuasse pesquisando ia descobrir mais coisa.

Na vida dele tinha muito do Jeca Tatu?
As pessoas confundiam um pouco a figura dele, achavam que ele era esse caipira bobão, o que realmente ele não era. Ele era um sujeito refinado, viajado, no auge dos anos 60 morava no Itaim (região metropolitana de São Paulo). Mas ele encarnou muito bem o personagem, até por trabalhar no interior de São Paulo e ter contato com matutos da região do vale do Parnaíba.

No livro pouco se fala da vida pessoal e da sexualidade dele. Por quê?
Ele foi um sujeito que viveu para o trabalho, então é difícil falar da vida pessoal. Ele tinha alguns cachorros na fazenda. Não teve muito essa coisa “família”. A família dele era a própria mãe. Sobre a questão da sexualidade, eu não achei nada que fosse relevante ou que fosse sério. Se ele realmente fosse homossexual ou tivesse tido um caso com alguém, eu não tiraria do livro, mas não era essa a proposta. Acho que isso que não faria diferença na história dele.

Você disse no final das pesquisas se sentia próxima a ele, como se o tivesse conhecido e, dizem que quando conhecemos bem as pessoas e convivemos com elas somos capazes de pensar como elas. (interrompida)...
Tá me achando com parecida com o Jeca? (risos)

(retomada)...O que você acha que o Mazzaropi diria do seu livro?
Eu acho que ele gostaria. Tem uma passagem no final que conta que ele conheceu um jornalista que foi o único cara que fez uma entrevista legal, com perguntas pertinentes. Tanto que eles viraram amigos. Ele tinha uma admiração por esse cara. Então, eu acho que ele iria gostar. É claro que ele ia achar uma porção de falhas, mas acho que ele iria gostar do estilo que as coisas foram ditas.